7.4.15

Despedida

Este post não é um lamento e sim um registro.

E a vida é assim...
Para alguns a vida segue o seu curso natural sem tropeços ou grandes obstáculos, já para outros as dificuldades estão sempre presentes, a linha não é reta e sim sinuosa, existem muitos altos e baixos, desencontros, dissabores e os caminhos acabam não convergindo.
Minha vida teve muitos altos e baixos, eu não tive a oportunidade de ter um pai ao meu lado ao longo da vida, quem representou este papel até a minha adolescência foi o meu avó Djalmo e meus tios Aldo, Álvaro e Osvaldo ( por parte de mãe), eles foram maravilhosos mas a figura do pai sempre foi um grande vazio.
Quando criança eu mentia na escola que meu pai era caminhoneiro porque ele nunca estava presente nas homenagens do Dia dos Pais, toda a sexta-feira eu ia para baixo da mesa da cozinha e dava três batidinhas e fazia um pedido: quero ver o meu pai! Não sei exatamente de onde "saiu" esta simpatia, mas eu acreditava e fazia com muita fé, mas meu desejo nunca se concretizou...
Aos 16 anos uma amiga da minha mãe se dispôs a ir comigo tentar encontrá-lo, eu tinha a referência de que um irmão do meu pai morava próximo a nossa casa e lá fomos nós, eu a a dona Nair estávamos cheias de esperança de que nosso plano daria certo, sim nós tínhamos um plano que era o seguinte: iríamos dizer que eu era filha de um amigo dele (do meu pai Emílio ) de infância e que o meu pai queria muito ter notícias do Emílio e foi o que fizemos e nosso plano deu certo.
Encontramos o irmão do meu pai, contamos a nossa mentirinha e ele nos deu informações de onde seria mais ou menos o local.
Lá fomos nós em busca do pai sumido, começamos a nossa procura umas 14h, perguntamos no bairro se alguém conhecia algum Emílio e nada, as 19h eu cansei e desisti, mas a dona Nair estava determinada e me falou que iria perguntar só mais uma vez e para um senhor que estava parado na frente da casa.
Ela o chamou contou que eu era filha do Dinarte e que meu pai queria muito ter notícias do Emílio,então o senhor falou: eu sou o Emílio, eu travei, comecei a tremer, suava frio, estava com a sensação de que ia desmaiar a qualquer momento, mas fiquei ali parada, estática.
Na minha imaginação seria como nas novelas ou nos filmes, nós iríamos nos abraçar, chorar e falar o quanto um fazia falta para o outro, mas nada disso aconteceu, ele simplesmente estendeu a mão, apertou a minha mão e ponto, buscou um papel e uma caneta e anotou o meu endereço com a promessa de que iria me visitar no final de semana que seria meu aniversário.
E eu esperei, mas novamente ele não apareceu, eu esperei todos os finais de semana daquele ano e nada...
No ano seguinte nós passamos por uma tragédia, minha avó faleceu em um domingo a tardinha e a noite  os ladrões entraram na nossa casa, roubaram e puseram fogo em tudo, ou seja quando terminasse o enterro nós não tínhamos mais para onde voltar...
Eu passei muito mal durante o sepultamento e fui levada para o hospital, fiquei na CTI por umas 8 horas e a minha mãe lá junto comigo e vivendo todo este pesadelo, não sei como o Emílio apareceu no meio desta tragédia e na ocasião nos ajudou.
Depois o tempo passou e ele foi ao meu casamento, nós vimos mais duas vezes depois disso, a última vez foi em agosto de 1995, eu estava grávida do Romulo, ele falou que iria me visitar para conheceu o Romulo mas isto nunca aconteceu, o Romulo tem 19 anos e nestes 19 eu nunca mais vi o meu pai.
Ele me ligou umas 5 vezes ao longo de todos estes anos, ele tinha uma voz linda, grave, suave, com uma excelente dicção, voz de locutor de rádio,Quando ele ligava eu sempre fazia o convite para ele vir na minha casa e passar um dia conosco ou para marcarmos de nos vermos em outro lugar, mas ele nunca aceitou, alegava sempre que estava muito mal por conta da diabetes e tal...eu tentei muitas vezes revê-lo mas não tive sucesso.
No domingo falei muito dele no almoço de Páscoa, queria muito ter passado com ele uma data comemorativa, a Páscoa,o Natal ou quem sabe um Dia dos Pais mas não deu.
Eu tenho uma irmã que se chama Terezinha e um irmão Marcos, a minha irmã eu conheci e os sobrinhos também, mas o irmão eu nunca o vi nem em fotos.
Hoje pela manhã a Terezinha me deu uma triste notícia, meu pai faleceu dia 11 de março, eu fiquei muito abalada, porque por mais que a vida tenha nos afastado eu gostaria de ter me despedido dele, ter visto ele pela última vez, ter pegado na sua mão, acariciado os seus cabelos que acredito que que estavam bem branquinhos, mas não deu.
Agora me resta as poucas lembranças que tenho, vou guardá-las com muito carinho dentro do meu coração e espero que quando eu passar para o lado de lá nós possamos nos encontrar e quem sabe ficar próximos.

Este momento é muito especial, eu e o meu pai Emílio dançando um vaneirão no dia do meu casamento,
                                                a foto não está boa porque é a foto da foto...

Pai, adeus, fica em paz!

10 comentários:

Sheyla disse...

Puxa Tania... que história! Eu estava lendo e igual a vc torcia para o final ser igual dos filmes e novelas.
Sinto muito querida!
E te admiro por toda a sua calma, não revolta, e todas essas tentativas!
Bjo grande

Fabibi disse...

Tânia, acompanho os teus posts e os lindos trabalhos a muito tempo e nunca tinha te visto tão triste. Fiquei muito tocada com o teu desabafo e nem imagino tamanho foi o teu sofrimento. Mas eu tenho certeza que, onde o teu Pai estiver ele estará te mandandano muitas energias boas, para que tu possa fazer da mesma forma para ele. Na vida tem coisas que não existem explicação mesmo. O certo mesmo é que nada é por acaso. E nós só teremos as respostas quando fizermos a passagem, dai só ele lá de cima vai poder explicar. O que importa é que a vida segue, e temos os nossos pequenos para educar e ser a referência. Queremos te ver sempre alegre, tomei o maior susto quando vi o post no meu blog! Achei que tua ia destivá-lo!!!! QUE SUSTO. UFA. Um grande beijo, Fabiavila.

Nana Nassar disse...

Amiga, o mais lindo de tudo isto é apesar da distância, da para sentir claramente este amor de filha para pai, e creio eu que ele também o tinha, só realmente não sabia como demonstrá-lo a você, talvez por vergonha da distância, talvez por tristeza do tempo perdido, mas creio que o amor sempre existiu! Liiindo....

Regiane disse...

Ta. que bom que vc teve a coragem de escrever tudo isso! Repartir sua história e ser testemunha do que vc sentiu esse tempo todo só me faz ter certeza a pessoa maravilhosa que vc é! Tem esse coração enorme e demonstra que apesar de todos os contratempos e ausências vc ainda é muito grata por ter desfrutado o pouco tempo que passou com seu pai. Aposto que tinha perguntas pra fazer, dúvidas pra tirar, mas ainda assim vc demonstrou amor e carinho! Força, amiga! Um grande beijo!

Meg Stoco disse...

Puxa que história.... Sinto muito.
A vida muitas vezes nos dá seu gosto meio amargo pra degustar. Meus sentimentos a você.
Bjuus
Meg stoco

Virgínia Vilela disse...

Amiga linda, mais um motivo para gostar e muito de vc! Bjooo

Claudia Ventura disse...

Poxa amiga, que história.
Tudo nesta vida tem um propósito... guarde este bom momento que esteve ao lado dele em um dia tão feliz em sua vida!
Que Deus possa confortar seu coração!
Te admiro muito viu!
Beijos no seu coração! ♥♥♥

Mila Cris disse...

A vida é um turbilhão de emoções mesmo, que só quem sente é que sabe a delicadeza de cada momento, de cada memória. Lendo esse relato sobre sua vida Tania, fico pensando em como essas memórias nos afetam, em como elas tem o poder de manter vivos aqueles que amamos mesmo que tudo seja diferente do que gostaríamos que fosse. Que fique a saudade, que fique a boa recordação dos poucos momentos mais que tiveram a intensidade do amor de uma vida toda. Fique bem, te desejo muita alegria e força. Beijos.

Arte Sana Sonia disse...

Chorei, gostei de seu sentimento que sempre foi de amor pelo seu pai. Bjs e força!!

Ilana Polakiewicz disse...

Tânia, ler este post me mostrou um pouco da sua luz e da sua generosidade. Tenho certeza de que o seu pai tinha e tem, onde quer que esteja, orgulho de ter uma filha como você. Beijo, Ilana.